Carta ao Investidor
Relatório mensal da gestão
Junho de 2026 · Edição nº 06/2026
Resumo Executivo
Junho marcou uma virada de página em relação ao trimestre mais tenso dos últimos anos. Logo na abertura do mês, o Ibovespa recuou 0,91% no primeiro pregão, refletindo a suspensão temporária das negociações entre Irã e Estados Unidos e uma nova disparada do petróleo.
No dia 16, o índice chegou a tocar a mínima do mês, aos 169.121 pontos, pressionado pela queda do Brent abaixo de US$80. A partir da terceira semana, porém, o quadro se inverteu e em 17 de junho foi formalizado, em Versalhes e depois em Bürgenstock, na Suíça, um memorando de entendimento entre Washington e Teerã que instituiu um cessar-fogo de 60 dias e reabriu o Estreito de Ormuz ao tráfego de petroleiros. O Ibovespa fechou o mês aos 172.024,12 pontos, com queda de 1,01% ante maio, a quarta perda mensal consecutiva , acumulando recuo de 8,2% no segundo trimestre. Ainda assim, o primeiro semestre de 2026 terminou no positivo, com alta de 6,76%.
O Copom promoveu o quarto corte consecutivo da Selic, reduzindo a taxa em 0,25 p.p., para 14,25% ao ano, em decisão unânime tomada em 17 de junho, a primeira reunião de política monetária já sob um cenário de alívio geopolítico. A inflação, por sua vez, deu sinais de arrefecimento, já que o IPCA de maio veio em 0,58% (4,72% em 12 meses), desacelerando ante os 0,67% de abril, e o IPCA-15 de junho recuou ainda mais, para 0,41% (4,80% em 12 meses), puxado pelo recuo dos combustíveis com a reabertura de Ormuz.
O dólar fechou junho cotado a R$5,1626, com alta de 2,32% no mês, mas ainda acumula queda de 5,95% no ano. O petróleo Brent foi o grande destaque negativo (para os produtores) do mês, visto que caiu cerca de 22,7%, de patamares acima de US$95 para próximo de US$73 por barril, registrando o pior trimestre desde 2020. Nos Estados Unidos, o Fed manteve os juros entre 3,50% e 3,75% na estreia de Kevin Warsh à frente da instituição, em reunião marcada por um tom mais duro do que o esperado pelo mercado.
Cenário Macroeconômico — Brasil
Copom corta Selic a 14,25%, na esteira do alívio geopolítico
O Copom reduziu a Selic em 0,25 p.p., para 14,25% ao ano, na reunião encerrada em 17 de junho, em decisão unânime e alinhada às expectativas do mercado. Foi o quarto corte consecutivo do ciclo iniciado em março, mas o comitê manteve o tom cauteloso que já vinha adotando desde abril, evitando sinalizar o ritmo dos próximos passos e reafirmando que as decisões futuras dependerão da evolução dos dados.
No comunicado, o BC reconheceu que os riscos de alta para a inflação seguem superando os de baixa, mesmo com a melhora do cenário externo trazida pelo acordo entre EUA e Irã.
Inflação perde força pelo segundo mês seguido
O IPCA de maio, divulgado em 12 de junho, subiu 0,58%, acima do consenso (0,53%), mas com desaceleração de 0,09 p.p. em relação a abril. O resultado acumulado em 12 meses foi de 4,72%, ainda distante do centro da meta de 3%. O destaque do mês ficou por conta de alimentos e bebidas (+1,33%, com impacto de 0,29 p.p.) e da energia elétrica residencial (+3,67%), pressionada pela bandeira tarifária amarela.
Já a prévia de junho, o IPCA-15, trouxe alívio mais consistente: alta de 0,41%, ante 0,62% em maio, a segunda desaceleração seguida. A queda dos combustíveis (-1,22%), puxada pelo recuo da gasolina e do etanol com a normalização do fluxo de petróleo após a reabertura de Ormuz, foi o principal fator de alívio. Ainda assim, o índice acumula 4,80% em 12 meses, acima do teto da meta, e o Focus segue projetando um IPCA de aproximadamente 5,2% a 5,3% para o fechamento de 2026.
Câmbio, fluxo externo e crédito
O dólar fechou junho cotado a R$5,1626, com alta de 2,32% no mês, corrigindo parte da forte valorização do real observada até abril, mas ainda acumula queda de 5,95% no ano.
O movimento de junho refletiu a reversão parcial do fluxo estrangeiro, que segundo dados de mercado, os investidores internacionais retiraram cerca de R$8,7 bilhões da B3 no mês, a primeira saída mensal líquida do semestre. Ainda assim, o saldo acumulado em 2026 permanece positivo, em torno de R$32,8 bilhões, sustentado principalmente pela entrada recorde observada em janeiro.
A atividade doméstica segue relativamente resiliente, ainda que com sinais de desaceleração, como foi possível perceber com o Caged de maio, que mostrou abertura de 72.960 vagas formais, abaixo da expectativa do mercado. O FMI, em relatório publicado no início de junho, avaliou que a economia brasileira permanece resiliente diante dos choques recentes e que o crescimento deve se recuperar ao longo de 2026, com projeção de expansão em torno de 2,5% no médio prazo.
Cenário Internacional
Acordo entre EUA e Irã muda o jogo do petróleo
O mês de junho foi marcado pela negociação e formalização de um cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã. Após meses de conflito no Oriente Médio, um memorando de entendimento foi assinado estabelecendo uma trégua de 60 dias, a reabertura do Estreito de Ormuz sem cobrança de pedágio e o início de negociações sobre o programa nuclear iraniano e o levantamento de sanções.
O impacto sobre o petróleo foi imediato e expressivo, já que o Brent, que havia chegado a US$ 126 no auge do conflito em abril, encerrou junho perto de US$ 73 por barril, uma queda de aproximadamente 22,7% apenas no mês e cerca de 30% no trimestre, sendo essa a maior retração trimestral desde 2020. Analistas do Goldman Sachs e do Citi já revisaram para baixo suas projeções para o Brent no restante do ano, com cenários que apontam para uma faixa entre US$60 e US$80 por barril caso a normalização dos fluxos se sustente. O acordo, no entanto, ainda é descrito como um entendimento preliminar (MOU) e a questão nuclear segue em aberto e episódios pontuais de tensão no Estreito de Ormuz continuaram a ser reportados ao longo da última semana do mês.
Para o Brasil, a reversão do choque de petróleo tem efeito ambíguo, uma vez que alivia a pressão inflacionária via combustíveis, como já capturado pelo IPCA-15 de junho, mas reduz a atratividade relativa das exportações de commodities energéticas e o potencial de arrecadação que havia sustentado parte do otimismo com o câmbio nos meses anteriores.
Fed mantém juros na estreia de Kevin Warsh
Em 17 de junho, o Federal Reserve manteve a taxa básica de juros entre 3,50% e 3,75% ao ano, pela quarta reunião consecutiva, em decisão unânime. Foi a primeira reunião comandada por Kevin Warsh, indicado por Donald Trump para substituir Jerome Powell, que permanece como membro do colegiado.
Apesar da expectativa de que Warsh imprimisse um viés mais dovish, o dot plot divulgado na ocasião surpreendeu o mercado, uma vez que nove dos doze membros votantes sinalizaram ver espaço para pelo menos uma alta de juros ainda em 2026, com seis deles defendendo mais de um aumento. Apenas um integrante indicou preferência por corte.
O comunicado do Fomc também retirou trechos que vinham sinalizando viés para futuros cortes e foi significativamente enxugado, em linha com a postura de Warsh, historicamente crítico ao uso de guidance antecipado pelo comitê. O diferencial de juros entre Brasil e EUA, ainda assim, permanece um dos mais elevados em mais de uma década, seguindo como suporte para o fluxo de capital em direção a ativos brasileiros de renda fixa.
Desempenho dos Principais Ativos — Junho 2026
| Ativo / Indicador | Mês (Jun/26) | Acum. 2026 | Comentário |
|---|---|---|---|
| Ibovespa (R$) | -1,01% | +6,76% | 4ª queda mensal seguida |
| Mín. do trimestre | 169.121 pts | 16/jun/2026 | Petróleo em queda acelerada |
| Dólar (R$) | R$ 5,1626 | -5,95% no ano | +2,32% no mês |
| Selic (% a.a.) | 14,25% | -0,75 p.p. no ano | 4º corte consecutivo |
| IPCA (mai/26) | R$ 5,1626 | 4,72% (12m) | Desacelerou ante abril (0,67%) |
| IPCA-15 (jun/26) | 0,58% | 4,80% (12m) | 2ª desaceleração seguida |
| Petróleo Brent | ~US$ 73/barril | -22,7% no mês | Pior trimestre desde 2020 |
| Fed Funds Rate | Estável | 3,50–3,75% | 1ª reunião com Kevin Warsh |
| Fluxo estrang. B3 | -R$ 8,7 bi | +R$ 32,8 bi no ano | 1ª saída mensal do semestre |
Mercado de Renda Variável
Junho reforçou o padrão observado desde o pico de abril, já que o Ibovespa engatou a quarta queda mensal seguida, fechando aos 172.024,12 pontos (-1,01% no mês), após tocar a mínima do trimestre em 16 de junho, aos 169.121 pontos, em meio à queda acentuada do petróleo e à saída de capital estrangeiro.
O volume de negócios permaneceu em níveis moderados ao longo do mês, com sessões de menor liquidez, como a de 29 de junho, marcada pelos jogos da Copa do Mundo, contribuindo para movimentos mais estreitos.
Do lado setorial, o recuo do petróleo pressionou Petrobras e demais papéis ligados à cadeia de energia ao longo do mês, enquanto o setor financeiro e de utilities oscilaram conforme a curva de juros futuros. A Vale foi destaque negativo isolado, em meio à disputa interna sobre a presidência do conselho, que resultou na convocação de uma assembleia de acionistas para 22 de julho. Apesar da queda de 8,2% no trimestre, o Ibovespa preserva ganho de 6,76% no acumulado do primeiro semestre, o que evidencia a magnitude do rali registrado entre janeiro e abril.
Mercado de Renda Fixa
Com a Selic a 14,25% ao ano, os títulos pós-fixados, como o Tesouro Selic (LFT), continuam entre as alternativas mais atrativas de risco-retorno em bases globais, ainda que o ritmo de cortes indicado pelo Copom sugira uma redução gradual desse carrego ao longo dos próximos trimestres.
Nos títulos IPCA+, as taxas reais permanecem em patamares historicamente elevados, o que segue justificando exposição desses papéis nas carteiras com horizonte mais longo, sobretudo diante da inflação ainda acima do teto da meta. A queda do petróleo e a consequente desaceleração do IPCA-15 em junho abrem espaço para uma leitura mais construtiva sobre a trajetória de preços nos próximos meses, mas a piora do dot plot do Fed e a reversão parcial do fluxo estrangeiro reforçam a necessidade de cautela na gestão da duration.
O crédito privado, sobretudo os fundos de infraestrutura, segue sendo monitorado de perto, o aumento de spreads observado nos últimos meses e a maior seletividade dos investidores tendem a abrir oportunidades pontuais em ativos com boa qualidade de crédito, mas a análise de caixa, alavancagem e governança das companhias emissoras segue sendo determinante nesse ambiente.
Perspectivas para os Próximos Meses
A consolidação do cessar-fogo entre EUA e Irã é o principal fator a monitorar no curto prazo. A manutenção da trégua e o avanço das negociações sobre o programa nuclear iraniano tendem a favorecer a normalização definitiva do fluxo de petróleo, com potencial de aliviar ainda mais a inflação doméstica e abrir espaço para a continuidade dos cortes de juros no Brasil. Uma eventual escalada, como os episódios pontuais já registrados no fim de junho no Estreito de Ormuz, poderia reverter parte desse otimismo.
No campo doméstico, os focos de atenção para julho e agosto são o IPCA de junho, a ser divulgado em 10 de julho, a reunião do Copom em agosto, quando o ritmo dos próximos cortes deverá ficar mais claro, e o avanço do calendário pré-eleitoral, com a eleição presidencial de outubro de 2026 ganhando peso crescente nas discussões de mercado.
No exterior, a postura mais dura sinalizada pelo Fed sob Kevin Warsh, com parte do comitê já discutindo eventuais altas de juros, é um contraponto relevante ao alívio trazido pela trégua no Oriente Médio e deve ser acompanhada de perto por seu potencial efeito sobre o diferencial de juros e o fluxo para emergentes.
Para os portfólios, mantemos visão equilibrada, com a renda fixa pós-fixada como base de sustentação, exposição seletiva em renda variável, com atenção redobrada a empresas exportadoras de commodities diante da reversão do ciclo de preços do petróleo, priorizando o setor financeiro e companhias de baixa alavancagem e manutenção da duration dos títulos IPCA+ compatível com o horizonte de cada cliente, reforçando que o ideal são títulos com vencimento a partir de 2035, de forma a captar o ganho com a marcação a mercado ao longo do ciclo.
Equipe de Gestão
RS Legacy | Junho de 2026





